31 de mar. de 2009

De Que São Feitos os Dias?



De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles, in 'Canções'

O Que Amamos Está Sempre Longe de Nós

O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

Não necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escuridão.

Cecília Meireles, in 'Solombra'

Solidão

Imensas noites de Inverno,
com frias montanhas mudas,
é o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.

(...)

A noite fecha seus lábios
- terra e céu - guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.

Cecília Meireles, in 'Viagem'

28 de mar. de 2009

Impulsivamente Precipitado

Pessoas calejadas(eu) não estão mais acostumadas com reconhecimento, consideração.
Pessoas escaldadas(eu) não estão mais acostumadas com romantismo, lirismo.

Eu, sinceramente, não acredito que alguém seja capaz de alguma coisa por mim.
Nem palhas, nem mundos, muito menos fundos.

Ao mínimo sinal fico cabreira, começo a desconfiar até do meu próprio travesseiro.
Estou vendo coisas, estou achando coisas, oh!
Não, não pode ser, devo estar interpretando tudo errado.
Ok, o que dará de errado desta vez?

É mais fácil negar, assim, eu não me decepciono, não é mesmo?
É mais fácil não tentar, não tentando não corro o risco de cair do cavalo, é aquele mesmo cavalo de sempre que teima em me derrubar.

Não me permitindo conhecer fico sem saber qual o gosto do novo, sem saber qual o gosto do novo, fico sem gostar, sem saber, sem gostar, fico na mesma, não saio da rotina! Boa!

Boa?

Chamo de precipitado, aquilo que é verdadeiramente coragem.
Coragem essa que eu não tenho.
Ou melhor, tive, durante muito tempo mas de tanta coragem desprezada ela passou a ser receio, vazio, hj ela se chama medo.

Impulsivamente dolorido.

Melhor que doa então.

Com gosto ou sem gosto?

Mah

27 de mar. de 2009

ACEITE-ME

Aceite-me como eu sou.
Não venho com garantia...
nem tenho a pretensão,
de ser alguém perfeito.
Toda a perfeição não posso ter.

Eu sou como você:
sou da espécie humana,
sou capaz de errar.
O erro não é falha de caráter
e errar faz parte da Natureza Humana.

Eu vivo.
Eu sorrio.
Eu também aprendo!
Meu conhecimento é incompleto.
Estou na busca o tempo todo,
nas horas acordadas e nas horas de sono.

Eu tenho um longo caminho a ser percorrido,
assim como você também tem.
Aprendemos nossas lições pelo caminho.
Atingiremos a Sabedoria.

Assim, por favor,
aceite-me como sou!
Porque eu sou só eu.
Apenas eu.

Não há ninguém igualzinho a mim no mundo.
Esta é a única garantia que dou.
É assim que eu me sinto.
Eu tenho um coração.
Abra-me e veja-o!
Por favor , cuide bem dele.
Ele é tudo que eu sou.
Apenas eu.

Eu Nasci Pra Amar Você?

Eu não sei por que estou aqui
Há uma chuva de incerteza sobre mim

Eu não sei se dou meu coração
Se me entrego de uma vez nessa paixão

Eu te vejo, mas não sinto o seu toque
Não me beija por mais que eu te Provoque

Eu não sei por que estou aqui
Basta ver o seu olhar pra desistir

Eu não sei por que insisto assim
Você nasceu pra mim?

Eu te amo sem ter nada de volta

Sou um anjo guardando a sua porta.

25 de mar. de 2009

Psicopata

São desprovidos do sentimento de culpa e dificilmente estabelecem laços afetivos com alguma pessoa — quando o fazem, é simplesmente por puro interesse.

Os psicopatas geralmente falam muito, expressam-se com encanto, têm respostas espertas e contam histórias.

O psicopata tem uma auto-estima muito elevada, um grande narcisismo, um egocentrismo fora do comum e uma sensação onipresente de que tudo lhe é permitido. Ou seja, sente-se
o ‘centro do universo’ e se crê um ser superior regido por suas próprias normas.

Sei de muita gente que gostaria de ter estas características.

19 de mar. de 2009

Verdades sobre mentiras...

quem pode com a verdade?

você quer a verdade?

tem certeza?

mesmo?

nááá...

você não sabe do que está falando

você não aguentaria ouvir a verdade

essa é a verdade

mentiras são boas

mentiras nos salvam

mentira nos protegem do sofrimento

mentiras protegem a alma a todo momento

um cobertor de mentiras é tão reconfortante

mentiras nos salvam de qualquer vexame

ah, o que seria da sociedade sem elas?

mas nem haveria como existir civilização

pois longe dos olhos é pertinho do coração

relacionamentos se baseiam em mentiras

a razão do fim é sempre culpa da verdade

essa é a verdade

mentiras são boas

eu tinha as minhas

a minha vida era uma tranquilidade só

mas eu me sentia tão mal mentindo

me sentia um enganador sem dó

ora bolas, mas todos não são?

ah, mas eu não sou não, meu irmão

eu sou bem melhor do que isso

sou a última bolacha do pacote

daí resolvi mudar o mundo

resolvi só falar a verdade

quis ser especial

um cara legal

e destrui uma alma

me perdi na minha

deixei ela sozinha

tudo terminei

é, eu sei

xeque-mate

essa é a verdade

mentiras não são boas

ser verdadeiro é bem mais difícil

você tem que apanhar pra aprender

eu odeio mentiras

eu odeio perder

amo a mim mesmo

meu negócio é vencer

nem que pra isso eu tenha que perder

você

a verdade só nos trouxe dor

mas é melhor do que viver um falso amor

no fim das contas fez sentido

ganhei o que há de melhor

o que não pode ser medido

e nem tem preço

isso eu mereço

de verdade

minha liberdade

Derramado por Tiago Bolzan De Luca

Anguish

É uma dor no meu peito que
Esmaga, aperta, pisa, tritura
Destrói
Me falta o sono, me falta o ar
Eu procuro mas não acho
É tudo escuro
Não acho a saída.
Eu choro e choro e me condeno
Me julgo, dou minha própria sentença
Não cumpro a pena e volto
pro mesmo lugar escuro.
Onde está a minha paz?
Me tire daqui por favor.

18 de mar. de 2009

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles

Questionário

Meu lado criança quer saber:

Quem é você?
Pq vc n sai do meu pensamento?
Pq eu não kero q saia?
Será q estou apaixonada?
O q é esse negócio de paixão?
É d brincar?
E como funciona?
Posso brincar com vc?
Será q não é amor?
O q é amor?
Qual a diferença?
Não parece a mesma coisa?
Pq tudo tem q ter nome?
Pq as pessoas sofrem?
Pq elas se separam?
Pq n ficam de bem?
O q é saudade?
É um brinquedo? Machuca?
Pq as pessoas choram qndos sentem saudade?
Tudo bem se eu não kiser esse brinkedo?
Voce é legal?
Sabia q eu gosto muito de vc?
Sabia q toda noite antes de dormir
Eu eço ao papai do céu que ilumine seu caminho?
Sabia q eu já sonhei c vc?
Vc gosta d mim?
Muito ou pouco?
Entao nós somos amigos?
Amigos podem namorar?
Pq vc esta rindo?
Vc me acha boba?
Sabia q eu queria ser grande?
Sabia q qndo eu crescer vou escrever poemas?
Voce gosta de poemas?
Posso fazer um p vc?

“Gosto tanto de vc
q nem sei dizer
se escrevesse poemas
tvz eu sabia
e se não soubesse
tanto fazia
já q te abraçar
era só o q eu keria”

Gostou?
Se eu fizesse uns vinte poemas
Vc me amaria?
Se vc me amasse
vc me diria?

Meu poético lado adulto
Agradece!

13 de mar. de 2009

Blurry

Está tudo tão embaçado
e todo mundo é tão falso
e todo mundo é tão vazio
e tudo é tão bagunçado
preocupado sem você
Eu não posso viver nem um pouco
O meu mundo inteiro te rodeia
Eu tropeço e então eu rastejo

Você poderia ser meu alguém
Você poderia ser meu salvador

Você sabe que eu a protegerei

De toda a obscenidade

Eu me pergunto o que você está fazendo

Imagino onde você está

Há oceanos entre nós

Mas isso não é muito distante


Todo mundo está mudando
Não há ninguém que seja real
Então invente o seu próprio fim
e me deixe saber como você se sente
Porque estou perdido sem você
Eu não posso viver nem um pouco
Meu mundo inteiro te rodeia
Eu tropeço e então rastejo


Blurry - Puddle Of Mudd - Tradução: Tiago Bolzan

Quarta

Para um coração ferido...

Há três épocas para a lembrança.

A primeira é como o dia que passou.
A alma, sob sua cúpula, sente-se abençoada
e o corpo em sua sombra se compraz.
O riso ainda não cessou, as lágrimas escorrem
a mancha de tinta na mesa ainda não se apagou -
e, como um selo no coração, repousa o beijo
de despedida, único, inesquecível...

Mas isso não dura muito...
Já não há mais cúpula no alto; apenas, em algum lugar,
num subúrbio distante, uma casinha solitária
onde, no inverno, faz frio, e no verão, calor,
onde há aranhas e o pó recobre tudo,
onde caem em pedaços as cartas inflamadas
e os retratos vão imperceptivelmente mudando;
e, ao voltar pra casa, lavam-se com sabão,
expulsam uma fugidia lágrima
das pálpebras cansadas - e dão um pesado suspiro...
Mas o relógio ainda bate, as primaveras se sucedem
uma depois da outra, o céu rosado fica,
as cidades mudam de nome,
e já não há mais testemunhas do passado,
já não há mais com quem chorar, com quem lembrar.
Devagarzinho, abandonam-nos as sombras,
que já não invocamos mais
pois o seu retorno poderia assustar-nos.
E um dia, ao despertar, descobrimos ter esquecido
o caminho para ir a essa casinha solitária.

Sufocando de raiva e de vergonha,
corremos para lá, mas (como acontece nos sonhos)
tudo está mudado: os homens, as coisas, as paredes e ninguém mais nos reconhece
- somos estranhos,

nem a nós mesmos encontramos lá... Meu Deus!

E aí que cresce a amargura:
sabemos que não há mais lugar
para esse passado nas fronteiras de nossa vida;
que, para nós, ele já é quase tão indiferente
quanto para o nosso vizinho de apartamento;
que os mortos, já nem os teríamos mais reconhecido;
que aqueles de quem Deus separou
passaram muitíssimo bem sem nós - e que, até mesmo,
do jeito que está, está tudo bem.

Respeitando a formatação, retirado do livro: Anna Akhmátova 05/02/1947

12 de mar. de 2009

O teu riso



Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

Fix The World Up For You

Eu irei consertar o mundo para você
Eu tentarei, construí-lo todo ao seu redor
Você nunca terá que ficar sozinha
Sim, você sempre saberá que você tem alguém
Para consertar o mundo para você

Bem, estou certo que errarei
Mais vezes do que acertarei
E eu não vou nem perceber isso
Mas eu estarei fazendo tudo que posso, para parar sua queda
Até mesmo agora eu prendo a respiração por você

Quando o mundo começar a desmoronar
Eu estarei lá, sim, você sabe que eu estarei

James Morrison

11 de mar. de 2009

Eu sei e você sabe

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

Vinicius de Moraes

Desdenho Cibernético



Msn, Orkut, Gtalk, Twitter, Icq, entre outros tipos de comunicadores instantâneos e rede social é uma grande ilusão.
Se eu não tiver online quantas pessoas vão lembrar de mim e vão querer saber como eu estou?

Se eu não puxar assunto, criar um diálogo, buscar, trazer pra mim, manter essa aproximação tenho a impressão de que tudo se dissolve, se perde.

Até que ponto um amor, uma amizade cibernética vai além do virtual?

"Ando meio fatigada de sedes afetivas inuteis."

9 de mar. de 2009

Alma.

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles

Ai.

Ai. Saudade é uma coisa azul e amarga com carne por fora e espinho por dentro.

Guarde

Guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

Visita

...E vejo os telhados onde jogávamos migalhas de pão para os passarinhos, escondidos para não assustá-los, até que eles viessem, mas não vinham nunca, era difícil seduzir os que têm asas, já sabíamos, mas ainda assim continuávamos jogando migalhas que a chuva dissolvia, intocadas. Não era difícil vê-lo ali, e ouvir seus passos longos subindo de dois em dois os degraus para abrir a porta e ficar me olhando sem dizer nada, até que nos abraçássemos e eu sentisse, como antigamente, a mecha rebelde de seu cabelo roçar-me a face como uma garra áspera e então soubesse nada ver, nada ouvir, e movimentasse meu corpo parado no meio do quarto para a cama sob a janela e mergulhando a cabeça nos lençóis desarrumados procurasse uma espécie de calor, imune ao tempo, às traças e à poeira, e procurasse o cheiro dele pelos cantos do quarto, e o chamasse com dor pelo nome...

Chega a doer!

Para Mah

Caio, tocando corações e o blog ganhando asas...

http://sujinsgrado.blogspot.com/2009/03/para-mah-para-amar-para-mah.html

7 de mar. de 2009

Caio

Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.

Não, não ofereço perigo algum:

... Sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada.

Tão...

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."

5 de mar. de 2009

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

4 de mar. de 2009

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Um beijo

Um beijo
Olavo Bilac

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....

3 de mar. de 2009

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite

os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti

Pra Não Chorar

Ando cansada de tudo
Desses nadas
Mudo de tom
Mas escuto o coração
Que é o talo de uma flor macia
Que algum ainda vai florar

E quando da areia
Do nada
Surge tudo
Creia que a luz
Vai limpar toda a bruma

Mas durma
Que a noite espreita
Deita que eu vou te ninar
A alegria já dobrou a esquina
Nina que é pra não chorar

Nana Caymmi