Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo, gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho é que ela já apanhou demais da vida.
Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça.. ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e
sangrando.
Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu,
mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente.
Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi
chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo."
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13 de fev. de 2011
Aquele 'Um'
Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar.
Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho.
Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir.
Mas isso é filme, ele não.
Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi.
Vai olhar direto para mim.
Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, quase toda noite.
Não por você, por outros como você.
Pra ele, me guardo.
Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula,
só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho.
Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir.
Mas isso é filme, ele não.
Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi.
Vai olhar direto para mim.
Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, quase toda noite.
Não por você, por outros como você.
Pra ele, me guardo.
Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula,
só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
"...sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu Deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes pra abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu Deus como você me dói de vez em quando"
Foto publicada às 12:50
Foto publicada às 12:50
No fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
Tudo muito bem qndo fica perto.
Tudo muito bem qndo fica perto.
[...] sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor,
pois se eu me comovia vendo você,
pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo,
meu Deus...como você me doía!
De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno,
bem no meio duma praça,
então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você
e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa
que eu vou ficar calada um tempo enorme...
só olhando você,
sem dizer nada
só olhando e pensando:
Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!
pois se eu me comovia vendo você,
pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo,
meu Deus...como você me doía!
De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno,
bem no meio duma praça,
então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você
e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa
que eu vou ficar calada um tempo enorme...
só olhando você,
sem dizer nada
só olhando e pensando:
Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!
Visita
Eu gostaria de ficar para sempre ali, parado naqueles degraus gastos, sentindo as sombras se adensarem no jardim que ficava logo após aqueles degraus onde eu pisava agora, olhando seu rosto envelhecido e doce, com os cabelos presos na nuca e a gola de renda...
...Então ela me olhava com seus olhos gentis acostumados à sombra não fiz um movimento antes de perceber que seus lábios abriam-se amáveis, como num sorriso, um sorriso antigo, desses dirigidos a um fotógrafo de aniversário...
...Mas sem fazer nenhuma dessas coisas, desviar-me de seu corpo frágil e penetrar no quarto e saber, então, que já não poderei dar meia-volta para ir embora e dentro do quarto, olhar para os livros desarrumados nas prateleiras, a cama com os lençóis ainda fora do lugar, como se há pouco alguém tivesse se erguido dali, dizia não ter tocado em nada...
...Não era difícil vê-lo ali, e ouvir seus passos longos subindo de dois em dois os degraus para abrir a porta e ficar me olhando sem dizer nada, até que nos abraçássemos e eu sentisse, como antigamente, a mecha rebelde de seu cabelo roçar-me a face como uma garra áspera e então soubesse nada ver, nada ouvir...
...e movimentasse meu corpo parado no meio do quarto para a cama sob a janela e mergulhando a cabeça nos lençóis desarrumados procurasse uma espécie de calor, imune ao tempo, às traças e à poeira, e procurasse o cheiro dele pelos cantos do quarto, e o chamasse com dor pelo nome...
...Mas não choro...
...E então tornar-me duro e pensar que tudo não passou de uma vertigem, e recusar o testemunho dolorido da memória e a mesma luz roxa de entardecer atravessando os verdes e os vidros para projetar sombras disformes na parede branca, e sacudir os ombros como se fosse real toda a poeira que existe sobre eles, e quase poder ver os pequenos átomos brilhantes dançando um pouco no ar antes de se depositarem sobre o tapete, os livros, a cama desfeita, e depois...
...Depois apagar a luz e descer outra vez pelos degraus...
...Já não está sentada junto ao piano, com o chá esfriando na sala escura e roxa, quero gritar tão alto que a obrigue a voltar-se e encarar-me e dizer duramente que sim, que não, que tudo isso não é verdade, que todos nós, eu, ela, ele, todos os degraus e todas as sombras e todos os retratos fazemos parte de um sonho sonhado por qualquer outra pessoa que não ela, que não ele, que não eu.
...Então ela me olhava com seus olhos gentis acostumados à sombra não fiz um movimento antes de perceber que seus lábios abriam-se amáveis, como num sorriso, um sorriso antigo, desses dirigidos a um fotógrafo de aniversário...
...Mas sem fazer nenhuma dessas coisas, desviar-me de seu corpo frágil e penetrar no quarto e saber, então, que já não poderei dar meia-volta para ir embora e dentro do quarto, olhar para os livros desarrumados nas prateleiras, a cama com os lençóis ainda fora do lugar, como se há pouco alguém tivesse se erguido dali, dizia não ter tocado em nada...
...Não era difícil vê-lo ali, e ouvir seus passos longos subindo de dois em dois os degraus para abrir a porta e ficar me olhando sem dizer nada, até que nos abraçássemos e eu sentisse, como antigamente, a mecha rebelde de seu cabelo roçar-me a face como uma garra áspera e então soubesse nada ver, nada ouvir...
...e movimentasse meu corpo parado no meio do quarto para a cama sob a janela e mergulhando a cabeça nos lençóis desarrumados procurasse uma espécie de calor, imune ao tempo, às traças e à poeira, e procurasse o cheiro dele pelos cantos do quarto, e o chamasse com dor pelo nome...
...Mas não choro...
...E então tornar-me duro e pensar que tudo não passou de uma vertigem, e recusar o testemunho dolorido da memória e a mesma luz roxa de entardecer atravessando os verdes e os vidros para projetar sombras disformes na parede branca, e sacudir os ombros como se fosse real toda a poeira que existe sobre eles, e quase poder ver os pequenos átomos brilhantes dançando um pouco no ar antes de se depositarem sobre o tapete, os livros, a cama desfeita, e depois...
...Depois apagar a luz e descer outra vez pelos degraus...
...Já não está sentada junto ao piano, com o chá esfriando na sala escura e roxa, quero gritar tão alto que a obrigue a voltar-se e encarar-me e dizer duramente que sim, que não, que tudo isso não é verdade, que todos nós, eu, ela, ele, todos os degraus e todas as sombras e todos os retratos fazemos parte de um sonho sonhado por qualquer outra pessoa que não ela, que não ele, que não eu.
"... Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta,
que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente, e eu plantasse você esperando ver nascer
uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira,
mas nunca, em nenhum momento
essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas,
e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes
e arrancar o telhado...”
que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente, e eu plantasse você esperando ver nascer
uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira,
mas nunca, em nenhum momento
essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas,
e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes
e arrancar o telhado...”
Limite Branco
Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondida e,
de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo.
Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto,
a mesma densidade.
Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto.
Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro.
Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura,
da ternura frustrada a agressão,
e da agressividade torna a surgir a solidão.
Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez,
outras mais lentamente.
E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda
de sentimentos que se sucedem e se sucedem e
deixam sempre sede no fim.
de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo.
Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto,
a mesma densidade.
Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto.
Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro.
Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura,
da ternura frustrada a agressão,
e da agressividade torna a surgir a solidão.
Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez,
outras mais lentamente.
E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda
de sentimentos que se sucedem e se sucedem e
deixam sempre sede no fim.
Um amor fresco
Tenho um amor fresco, com gosto de chuva e raios e urgências.
Tenho um amor que me veio pronto, assim,
água que caiu de repente, nuvem que não passa.
Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo.
Um amor susto.
Um amor raio trovão fazendo barulho.
Me bagunça e chove em mim todos os dias.
Tenho um amor que me veio pronto, assim,
água que caiu de repente, nuvem que não passa.
Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo.
Um amor susto.
Um amor raio trovão fazendo barulho.
Me bagunça e chove em mim todos os dias.
Chegue
"Chegue bem perto de mim.
Me olhe, me toque,
me diga qualquer coisa.
Ou não diga nada,
mas chegue mais perto.
Não seja idiota,
não deixe isso se perder,
virar poeira, virar nada..."
Me olhe, me toque,
me diga qualquer coisa.
Ou não diga nada,
mas chegue mais perto.
Não seja idiota,
não deixe isso se perder,
virar poeira, virar nada..."
4 de ago. de 2009
O Inventário do Ir-remediável
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio:
quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
Melhor interromper o processo em meio:
quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
5 de abr. de 2009
Vai Passar...
" Vai passar, tu sabes que vai passar.
Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe?
O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'.
Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer
e,
de repente,
no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como
'estou contente outra vez'
Sempre Caio.
Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe?
O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'.
Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer
e,
de repente,
no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como
'estou contente outra vez'
Sempre Caio.
O irremediável
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
Caio.
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê.
Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.
Caio.
9 de mar. de 2009
Visita
...E vejo os telhados onde jogávamos migalhas de pão para os passarinhos, escondidos para não assustá-los, até que eles viessem, mas não vinham nunca, era difícil seduzir os que têm asas, já sabíamos, mas ainda assim continuávamos jogando migalhas que a chuva dissolvia, intocadas. Não era difícil vê-lo ali, e ouvir seus passos longos subindo de dois em dois os degraus para abrir a porta e ficar me olhando sem dizer nada, até que nos abraçássemos e eu sentisse, como antigamente, a mecha rebelde de seu cabelo roçar-me a face como uma garra áspera e então soubesse nada ver, nada ouvir, e movimentasse meu corpo parado no meio do quarto para a cama sob a janela e mergulhando a cabeça nos lençóis desarrumados procurasse uma espécie de calor, imune ao tempo, às traças e à poeira, e procurasse o cheiro dele pelos cantos do quarto, e o chamasse com dor pelo nome...
Chega a doer!
Chega a doer!
7 de mar. de 2009
Caio
Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
Tão...
"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros."
22 de jan. de 2009
Onírico
Veio num sonho, certa noite.
Ela o amava. Ele a amava também.
E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era.
Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela.
Isso era tudo.
Dormiam juntos, no sonho, porque era bom para um e para outro estarem assim juntos, naquele outro espaço.
Não vinha nada de fora, nem ninguém.
Deitada nua no ombro também nu dele, não havia fatos.
Dormiam juntos, apenas.
Isso era limpo e nítido no sonho que ela sonhou aquela noite.
Deitada no ombro dele, ela via seu rosto muito próximo.
Esse era o sonho, nada mais.
isso, mais tarde saberia, era o único fato do sonho inteiro: via o rosto dele muito próximo.
Como um astronauta prestes a desembarcar veria a face da lua, mal reconhecendo o Mar da Serenidade perdido em poeira cinza, assim ela o via naquela proximidade excessiva, quase inumana de tão próxima.
Fechasse os olhos — mas não os fecharia, pois já estava dormindo — guardaria contra as pálpebras cerradas um por um dos traços dele. Crateras miúdas com negros fios de barba despontando duros de dentro delas, molhadas gretas polpudas além das quais brilhava o branco duro dos dentes.
Coisas assim, ela via.
E de olhos abertos, embora fechados, pois sonhava, protegia-o, protegiam- se no meio da noite. Tão simples, tão claro. E de alguma forma inequívoca, para sempre.
Talvez ele tivesse passado um dos braços em tomo da cintura dela, quem sabe ela houvesse deitado uma das mãos sobre o ombro dele, erguendo os dedos até que tocassem no lóbulo de sua orelha. Em todos os dias que se seguiram à noite daquele sonho, e foram muitos, honestamente não saberia localizar outros detalhes.
Pois enquanto dormia, naquela noite, tudo era só e apenasmente isso: dormiam juntos.
No centro da noite, no meio do sonho, no outro espaço.
Embalada pelos ruídos da rua, dormiu até quase sete entre sonhos onde ele não surgia, perambulando por histórias que não o traziam de volta.
Lavou o rosto, esquentou o frango no microondas, passou café, acendeu um cigarro espiando chatices na tevê — e tcomou a dormir.
Custou um pouco.
Foi quando, caindo em tentação, tentou quase desesperada lembrar-se — daquela vez, naquela noite — se ele teria mesmo passado um dos braços pela sua cintura, e se esse braço teria pêlos densos, mas macios de tocar, e se a mão dele realmente fechara-se exata e solidária e carinhosa naquele ponto secreto onde, constrangida, ela admitia ter mesmo algumas gordurinhas, e se a mão dela estaria assim meio pousada nos pêlos do peito dele, distendendo dois, três dedos até tocar no lóbulo da orelha. Colado ao rosto, alguém dissera, muita espiritualidade. Ou o contrário? Budas, Cristos, Oxalás, invocou no escuro que ainda guardava certo cheiro do sono anterior onde, nu e homem, ele habitara ao lado dela. Mas sabia que tudo isso — as invenções recentes sobre o outro espaço — era puro artifício.
Sem artifícios, acordou na manhã seguinte.
Vazias, ela e a manhã.
E procurou o telefone para contar às amigas. “Premonição”, disse uma, “você vai encontrar alguém”; “transporte astral”, disse outra, “você deve tê-lo realmente encontrado numa outra dimensão”; “ah, mera projeção de carências atávicas”, disse mais uma, “no fundo pura falta de sexo”.
Algum dia, ela desesperançava, em algum lugar, planejou em seguida, noutro espaço, por trás de tudo, num mundo paralelo, quem sabe: ah, sim, que certamente tornaria a encontrá-lo numa interfreqüêncía de rádio ou televisão, num reflexo do espelho.
E às quatro da manhã a surpreenderam com um prato de macarrão frio sobre os joelhos, os olhos postos vesgos nos riscos magnéticos horizontais da tela da tevê.
Ele não estava lá.
Nos dias seguintes, mesmo aceitando todos os janta-res e cedendo a todos os cinemas e shoppings e pizzarias, pois ele poderia também estar no real — ele também não estava lá.
Nem aqui. Em nenhum lugar onde fosse, de fora ou de dentro, nos dias seguintes ao dia em que estivera deitada no ombro dele tão proximamente nu também, no fundo de um sonho, conseguia reencontrá-lo.
Pois havia outros detalhes, semanas depois ainda tentava lembrar.
Havia um cheiro, por exemplo. Tênue, quase perverso. Intimidade úmida, limpa, nas dobras da carne suada, preservada na própria pele. Feito égua no escuro do quarto, escancarava narinas farejando o macho que a cavalgaria.
Deu para pesquisar colônias masculinas, aspirar camisas entreabertas dos homens pelos ônibus, nas filas de bancos e correios, elevadores, essência entre os pêlos, primeiro suor após o banho, reconheceria quando o encontrasse. O cheiro cru, original.
Não encontrou.
Dilatava as narinas em lugares públicos cheios de homens suados — mas nenhum cheiro era o dele. Rememorava meticulosa: de baixo para cima, rosto pousado no peito dela, assim o vira naquela única vez.
E embora o ângulo distorcido, porque era tudo o que tinha, tentava recompô-lo meses — e distorções — depois. Miúdas crateras, fios negros duros de barba despontando — apegava-se à certeza do negros como se fincasse bandeira em território conquistado — e depois as gretas polpudas de um lábio inferior atrás do qual brilhavam alvos dentes brancos. Alvos, repetia.
Revistou revistas procurando semelhanças, Gibsons, Hanks, Lamberts, e esforçando o olhar para além dos (cones imaginava identificar um sobrecílio, um pômulo, mas se passara tanto tempo que talvez, a original, a única, que não saberia seria ainda uma memória ou sua Primeira Invernada. Insistia: cílios longos macios. Sem vírgulas longos macios os cílios do homem que a amava e que ela amava também naquela noite e para sempre no meio de um sonho ficando antigo demais e meio disperso.
Invenções Desesperadas, pois, passou a fazer, Íntimas Orgias Imaginárias.
Fossas nasais abertas onde ela passava a ponta da língua localizando certo remoto gosto salgado, e a outra mão dela, não aquela pousada no peito dele, mas esta uma que descia à toa pelos pêlos, enroscando-se até a cintura e então o umbigo súbito em certa barriga perdoada, porque ela o amava, e penetrava no umbigo com a ponta da unha vermelha, antes de mergulhar na mata mais abaixo, aquele homem que não era sequer perfeito e por isso mesmo belo, porque a amava e ela a ele, e isso era para sempre apesar do fugaz.
Passaram-se meses, ela não o esquecia.
Toda noite, acompanhada ou não — pois ao fim e ao cabo achava, digamos, saudável manter uma vida real-objetiva enquanto ele continuava a acontecer dentro de si, no outro espaço, sem que ninguém soubesse —, abria-se só para ele.
E quando os outros reais, objetivos, debruçavam-se sobre ela, virava-os de costas na cama — boca arriba, repetia, como se fora argentina, boca arriba — e encostando o rosto em seus peitos tentava retomar aquele mesmo ângulo entrevisto à beira do pescoço úmido, íntimo, único.
Mas nunca outros homens foram, eram nem seriam aquele, e ela sabia que de maneira alguma poderiam ser, ainda que fingisse com o máximo de empenho. Pois, por trás do sonho, resistia o chamado real-impiedoso.
Porra caralho buceta, repetia sozinha.
Bruta, vulgar.
Afinal, não era essa a forma de procurá-lo, jamais no chamado real-impiedoso.
Então voltava a deitar em horas absurdas e a dormir para tentar encontrá-lo no país onde habitava, e nem sabia que reino mais, tão diverso do dela.
Todas as noites, um segundo antes de afundar, pensava — onde quer que você esteja, meu príncipe, em qualquer região da minha mente, no mínimo interstício, na fímbria do pensamento, frincha da memória, dobra da fantasia, faixa vibratória passada presente futura, aqui vou eu ao seu encontro, meu bem amado.
E nada.
Mesmo que alimentasse o hábito de materializar anjos e fadas sentados à beira de sua cama a perguntarem gentis o que desejava mais profunda e loucamente entre todas as coisas da vida inteira, o que mais queria de tudo que existe no universo infinito — e respondesse sempre, singela e sincera: tornar a encontrá-lo —, nunca mais voltou a vê-lo. Nem no sonho, nem na vida. Inúteis cartomantes, trânsitos, runas, ebós.
O Valete de Copas traria carta de amor assim que Netuno abandonasse a oposição de Vênus na casa do karma, Peorth anunciaria o reencontro das coisas perdidas se Oxum aceitasse as rosas amarelas jogadas na cachoeira. Nessa região movediça da qual não desacreditava de todo, pois, afinal, fora onde o conhecera — ele também não estava.
Delirava insone: quando eu voltar princesa e você gladiador entre feras, quem sabe na arena; quando emergir do fundo das águas para espiar teu reino terrestre e verde, à superfície, quando eu talvez sereia, mulher-maravilha, pastora e astronauta navegando em abismos — quem, quem sabe quando?
Por enquanto, arduamente. era só um cheiro de homem nu flutuando no escuro do quarto, quentura de bicho vivo pulsando junto à quentura de bicho vivo dela. Outra coisa, noutro lugar. Que não ficava aqui, nem lá.
Talvez se morresse.
O problema é que a vida era agora e era aqui. E além de não estar nem no aqui nem no agora, ele não partia.
Não se matou.
Não seria capaz, resistia sempre à ilusão de encontrá-lo um dia. Por isso mesmo houve outros, claro. Algumas iluminações, encontros quase agradáveis até. O engenheiro divorciado, um professor de olhos verdes.
Mas aprendeu a ir dormir sempre o mais cedo que pode, pois é nessa faixa que ele habita, ela sabe, a contemplá-la mesmo de olhos fechados.
E de tudo que foi restando nesses anos todos, continua sabendo que sabe que fica lá o lugar onde poderia encontrá-lo outra vez. Do outro lado, onde com os olhos abertos ela vê com os olhos fechados e inteiramente nua, encostada ao ombro dele, que dorme inteiramente nu também, mas a vê-la dentro do sono.
Arfam levemente os dois. Ela dorme segura protegida no ombro dele que a protege seguro. Mesmo dormindo, mesmo do lado de cá. E isso é para sempre, por mais que o tempo passe e a afaste cada vez mais dele, que continua eterno naquele segundo em que o viu. E isso ninguém roubará, repete-se, mesmo levando em conta todos aqueles meses de enganos vis que continuam e continuarão a vir depois daquele sonho.
Eu te amo, repete sozinha para o escuro toda noite, pouco antes de seu corpo dissolver-se na espuma do sono, eu te amo. E se pudessem saber, os outros, todos saberiam que isso não deixa de ser uma vitória. Certa espécie de vitória. Mas tão dúbia que parece também uma completa derrota.
Caio Fernando Abreu mais uma vez!!!!!!!!!
Ela o amava. Ele a amava também.
E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era.
Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela.
Isso era tudo.
Dormiam juntos, no sonho, porque era bom para um e para outro estarem assim juntos, naquele outro espaço.
Não vinha nada de fora, nem ninguém.
Deitada nua no ombro também nu dele, não havia fatos.
Dormiam juntos, apenas.
Isso era limpo e nítido no sonho que ela sonhou aquela noite.
Deitada no ombro dele, ela via seu rosto muito próximo.
Esse era o sonho, nada mais.
isso, mais tarde saberia, era o único fato do sonho inteiro: via o rosto dele muito próximo.
Como um astronauta prestes a desembarcar veria a face da lua, mal reconhecendo o Mar da Serenidade perdido em poeira cinza, assim ela o via naquela proximidade excessiva, quase inumana de tão próxima.
Fechasse os olhos — mas não os fecharia, pois já estava dormindo — guardaria contra as pálpebras cerradas um por um dos traços dele. Crateras miúdas com negros fios de barba despontando duros de dentro delas, molhadas gretas polpudas além das quais brilhava o branco duro dos dentes.
Coisas assim, ela via.
E de olhos abertos, embora fechados, pois sonhava, protegia-o, protegiam- se no meio da noite. Tão simples, tão claro. E de alguma forma inequívoca, para sempre.
Talvez ele tivesse passado um dos braços em tomo da cintura dela, quem sabe ela houvesse deitado uma das mãos sobre o ombro dele, erguendo os dedos até que tocassem no lóbulo de sua orelha. Em todos os dias que se seguiram à noite daquele sonho, e foram muitos, honestamente não saberia localizar outros detalhes.
Pois enquanto dormia, naquela noite, tudo era só e apenasmente isso: dormiam juntos.
No centro da noite, no meio do sonho, no outro espaço.
Embalada pelos ruídos da rua, dormiu até quase sete entre sonhos onde ele não surgia, perambulando por histórias que não o traziam de volta.
Lavou o rosto, esquentou o frango no microondas, passou café, acendeu um cigarro espiando chatices na tevê — e tcomou a dormir.
Custou um pouco.
Foi quando, caindo em tentação, tentou quase desesperada lembrar-se — daquela vez, naquela noite — se ele teria mesmo passado um dos braços pela sua cintura, e se esse braço teria pêlos densos, mas macios de tocar, e se a mão dele realmente fechara-se exata e solidária e carinhosa naquele ponto secreto onde, constrangida, ela admitia ter mesmo algumas gordurinhas, e se a mão dela estaria assim meio pousada nos pêlos do peito dele, distendendo dois, três dedos até tocar no lóbulo da orelha. Colado ao rosto, alguém dissera, muita espiritualidade. Ou o contrário? Budas, Cristos, Oxalás, invocou no escuro que ainda guardava certo cheiro do sono anterior onde, nu e homem, ele habitara ao lado dela. Mas sabia que tudo isso — as invenções recentes sobre o outro espaço — era puro artifício.
Sem artifícios, acordou na manhã seguinte.
Vazias, ela e a manhã.
E procurou o telefone para contar às amigas. “Premonição”, disse uma, “você vai encontrar alguém”; “transporte astral”, disse outra, “você deve tê-lo realmente encontrado numa outra dimensão”; “ah, mera projeção de carências atávicas”, disse mais uma, “no fundo pura falta de sexo”.
Algum dia, ela desesperançava, em algum lugar, planejou em seguida, noutro espaço, por trás de tudo, num mundo paralelo, quem sabe: ah, sim, que certamente tornaria a encontrá-lo numa interfreqüêncía de rádio ou televisão, num reflexo do espelho.
E às quatro da manhã a surpreenderam com um prato de macarrão frio sobre os joelhos, os olhos postos vesgos nos riscos magnéticos horizontais da tela da tevê.
Ele não estava lá.
Nos dias seguintes, mesmo aceitando todos os janta-res e cedendo a todos os cinemas e shoppings e pizzarias, pois ele poderia também estar no real — ele também não estava lá.
Nem aqui. Em nenhum lugar onde fosse, de fora ou de dentro, nos dias seguintes ao dia em que estivera deitada no ombro dele tão proximamente nu também, no fundo de um sonho, conseguia reencontrá-lo.
Pois havia outros detalhes, semanas depois ainda tentava lembrar.
Havia um cheiro, por exemplo. Tênue, quase perverso. Intimidade úmida, limpa, nas dobras da carne suada, preservada na própria pele. Feito égua no escuro do quarto, escancarava narinas farejando o macho que a cavalgaria.
Deu para pesquisar colônias masculinas, aspirar camisas entreabertas dos homens pelos ônibus, nas filas de bancos e correios, elevadores, essência entre os pêlos, primeiro suor após o banho, reconheceria quando o encontrasse. O cheiro cru, original.
Não encontrou.
Dilatava as narinas em lugares públicos cheios de homens suados — mas nenhum cheiro era o dele. Rememorava meticulosa: de baixo para cima, rosto pousado no peito dela, assim o vira naquela única vez.
E embora o ângulo distorcido, porque era tudo o que tinha, tentava recompô-lo meses — e distorções — depois. Miúdas crateras, fios negros duros de barba despontando — apegava-se à certeza do negros como se fincasse bandeira em território conquistado — e depois as gretas polpudas de um lábio inferior atrás do qual brilhavam alvos dentes brancos. Alvos, repetia.
Revistou revistas procurando semelhanças, Gibsons, Hanks, Lamberts, e esforçando o olhar para além dos (cones imaginava identificar um sobrecílio, um pômulo, mas se passara tanto tempo que talvez, a original, a única, que não saberia seria ainda uma memória ou sua Primeira Invernada. Insistia: cílios longos macios. Sem vírgulas longos macios os cílios do homem que a amava e que ela amava também naquela noite e para sempre no meio de um sonho ficando antigo demais e meio disperso.
Invenções Desesperadas, pois, passou a fazer, Íntimas Orgias Imaginárias.
Fossas nasais abertas onde ela passava a ponta da língua localizando certo remoto gosto salgado, e a outra mão dela, não aquela pousada no peito dele, mas esta uma que descia à toa pelos pêlos, enroscando-se até a cintura e então o umbigo súbito em certa barriga perdoada, porque ela o amava, e penetrava no umbigo com a ponta da unha vermelha, antes de mergulhar na mata mais abaixo, aquele homem que não era sequer perfeito e por isso mesmo belo, porque a amava e ela a ele, e isso era para sempre apesar do fugaz.
Passaram-se meses, ela não o esquecia.
Toda noite, acompanhada ou não — pois ao fim e ao cabo achava, digamos, saudável manter uma vida real-objetiva enquanto ele continuava a acontecer dentro de si, no outro espaço, sem que ninguém soubesse —, abria-se só para ele.
E quando os outros reais, objetivos, debruçavam-se sobre ela, virava-os de costas na cama — boca arriba, repetia, como se fora argentina, boca arriba — e encostando o rosto em seus peitos tentava retomar aquele mesmo ângulo entrevisto à beira do pescoço úmido, íntimo, único.
Mas nunca outros homens foram, eram nem seriam aquele, e ela sabia que de maneira alguma poderiam ser, ainda que fingisse com o máximo de empenho. Pois, por trás do sonho, resistia o chamado real-impiedoso.
Porra caralho buceta, repetia sozinha.
Bruta, vulgar.
Afinal, não era essa a forma de procurá-lo, jamais no chamado real-impiedoso.
Então voltava a deitar em horas absurdas e a dormir para tentar encontrá-lo no país onde habitava, e nem sabia que reino mais, tão diverso do dela.
Todas as noites, um segundo antes de afundar, pensava — onde quer que você esteja, meu príncipe, em qualquer região da minha mente, no mínimo interstício, na fímbria do pensamento, frincha da memória, dobra da fantasia, faixa vibratória passada presente futura, aqui vou eu ao seu encontro, meu bem amado.
E nada.
Mesmo que alimentasse o hábito de materializar anjos e fadas sentados à beira de sua cama a perguntarem gentis o que desejava mais profunda e loucamente entre todas as coisas da vida inteira, o que mais queria de tudo que existe no universo infinito — e respondesse sempre, singela e sincera: tornar a encontrá-lo —, nunca mais voltou a vê-lo. Nem no sonho, nem na vida. Inúteis cartomantes, trânsitos, runas, ebós.
O Valete de Copas traria carta de amor assim que Netuno abandonasse a oposição de Vênus na casa do karma, Peorth anunciaria o reencontro das coisas perdidas se Oxum aceitasse as rosas amarelas jogadas na cachoeira. Nessa região movediça da qual não desacreditava de todo, pois, afinal, fora onde o conhecera — ele também não estava.
Delirava insone: quando eu voltar princesa e você gladiador entre feras, quem sabe na arena; quando emergir do fundo das águas para espiar teu reino terrestre e verde, à superfície, quando eu talvez sereia, mulher-maravilha, pastora e astronauta navegando em abismos — quem, quem sabe quando?
Por enquanto, arduamente. era só um cheiro de homem nu flutuando no escuro do quarto, quentura de bicho vivo pulsando junto à quentura de bicho vivo dela. Outra coisa, noutro lugar. Que não ficava aqui, nem lá.
Talvez se morresse.
O problema é que a vida era agora e era aqui. E além de não estar nem no aqui nem no agora, ele não partia.
Não se matou.
Não seria capaz, resistia sempre à ilusão de encontrá-lo um dia. Por isso mesmo houve outros, claro. Algumas iluminações, encontros quase agradáveis até. O engenheiro divorciado, um professor de olhos verdes.
Mas aprendeu a ir dormir sempre o mais cedo que pode, pois é nessa faixa que ele habita, ela sabe, a contemplá-la mesmo de olhos fechados.
E de tudo que foi restando nesses anos todos, continua sabendo que sabe que fica lá o lugar onde poderia encontrá-lo outra vez. Do outro lado, onde com os olhos abertos ela vê com os olhos fechados e inteiramente nua, encostada ao ombro dele, que dorme inteiramente nu também, mas a vê-la dentro do sono.
Arfam levemente os dois. Ela dorme segura protegida no ombro dele que a protege seguro. Mesmo dormindo, mesmo do lado de cá. E isso é para sempre, por mais que o tempo passe e a afaste cada vez mais dele, que continua eterno naquele segundo em que o viu. E isso ninguém roubará, repete-se, mesmo levando em conta todos aqueles meses de enganos vis que continuam e continuarão a vir depois daquele sonho.
Eu te amo, repete sozinha para o escuro toda noite, pouco antes de seu corpo dissolver-se na espuma do sono, eu te amo. E se pudessem saber, os outros, todos saberiam que isso não deixa de ser uma vitória. Certa espécie de vitória. Mas tão dúbia que parece também uma completa derrota.
Caio Fernando Abreu mais uma vez!!!!!!!!!
21 de jan. de 2009
Lamento da Noiva do Soldado
Como posso ficar nesta casa perdida,
neste mundo da noite
sem ti?
Ontem falava a tua boca à minha boca...
E agora que farei,
sem saber mais de ti?
Pensavam que eu vivesse por meu corpo e minha alma!
Todos os olhos são de cegos... Eu vivia
unicamente de ti!
Teus olhos, que me viram, como podem ser fechados?
Aonde foste, que não me chamas, nao me pedes,
como serei agora, sem ti?
Cai neve nos teus pés, no teu peito, no teu
coração... Longe e solitário... Neve, neve...
E eu fervo em lágrimas, aqui.
Essa poesia é parte do livro "Antologia Poética de Cecília Meireles.
Lindíssimo!
neste mundo da noite
sem ti?
Ontem falava a tua boca à minha boca...
E agora que farei,
sem saber mais de ti?
Pensavam que eu vivesse por meu corpo e minha alma!
Todos os olhos são de cegos... Eu vivia
unicamente de ti!
Teus olhos, que me viram, como podem ser fechados?
Aonde foste, que não me chamas, nao me pedes,
como serei agora, sem ti?
Cai neve nos teus pés, no teu peito, no teu
coração... Longe e solitário... Neve, neve...
E eu fervo em lágrimas, aqui.
Essa poesia é parte do livro "Antologia Poética de Cecília Meireles.
Lindíssimo!
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