29 de jan. de 2009

A hora da partida

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Limpeza

Eu to exausta de coisas pela metade.
Meios amigos, meios sonhos, meios planos.
Quero excluir da minha vida pessoas que não tem consideração, não são ao todo, são "mais ou menos".
Gente sem intensidade, sem paixão, pessoas mornas, gente indecisa.
Limpeza geral na vida, como se fosse um guarda-roupas.
Jogar tudo fora e começar tudo do zero.
Se é que vale a pena recomeçar.
Deve ser melhor viver sozinho.

A hora que passa.

Provavelmente tu ja tenho ouvido falar da frase: A hora é agora!

Pois é, não tem frase mais certa!

A hora é agora, viva agora, faça agora.
Se não fizer, o fio da meada se perde, o foco se perde.

O momento certo e tão perfeito não vai chegar.

Quando temos 20 anos é pq somos jovens demais, qndo fizermos 30 é pq o emprego perfeito não chegou e quando tivermos 40 o salário não é dos melhores...

Não espere pelo momento certo pq ele não virá.

A paixão acaba, o amor acaba, a paciência, a esperança, a vontade acabam.

Não aceito coisas pela metade, duvidas, incertezas.

Ou é ou não é.

Cinza, morno, metade, não aceito.

Eu tento falar, tento dizer, tento mostrar, alertar, dizer: -Óh, tudo esta se perdendo.

Mas eu não consigo pq eu me torno chata.

Eu tento, juro.

Só que a minha hora é diferente da sua.

27 de jan. de 2009

Elegia 1938

MARAVILHOSO!

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.

Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva.

Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan!

EU

Filha do carbono e do amoníaco
Sofro a influência dos signos do zodíaco...

Dimensões: +- 1:65 x 58kg
Mais carne do q osso
Mais sentimento do q razão
Meus olhos são garços, são cor das safiras,
Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
Imitam as nuvens de um céu anilado,
As cores imitam das vagas do mar!

85% Melancolia 15% Tristezas momentâneas
75% Sonhos 25% Lamentações
88% alegria, 12% seriedade
99% malícia 1% inocencia

Não faço parte desse mundo!

Validade:Indeterminada
Data de Fabricação: 07/08/1981
Agite antes de usar.
Mantenha fora do alcance de mentirosos.
Altamente toxico.
Produto moldável e flexível.
Quebrável.
Defeito de fábrica: Transparência
Bônus: Transparência

Ex Ciência da Computação
Ontem Publicidade
Amanhã Design e Produção de Audiovisual e Cinema
Sempre Vocalista

Indiscutivelmente Amante da música, fotografia, cinema
e de todas formas de arte!
Admiradora de pessoas cultas e inteligentes!
Ainda que se agigante os poderes da insensibilidade cultural, não deixarei eu de fazer órbita no mundo que me faz amante da sabedoria e da intelectualidade.

.Não seja injusto comigo
.Não duvide da minha palavra.
.Antes de tirar qqr conclusão, me pergunte!
.Jamais me prometa algo q vc não pode cumprir...
.Nunca se atrase, sou muito pontual!
.Me dê exclusividade em alguma coisa na sua vida.

É vc

Uma pessoa muito querida e especial escreveu isso aí embaixo pra mim! Obrigada!

É VC

Ela é uma jóia rara, numa vitrine.
Tem brilho próprio que atrai olhares.

Para ela, é muito importante ser admirada, desejada.
Tem que ser a única para 'ele'.
É impetuosa, imprevisível e sedutora.
E quando apaixonada é capaz de se doar por completo.

É dramática quando perde o controle da situação, típico de quem vive por paixão.

Generosa, amiga, sensível e corajosa, sabe reconhecer seus erros, e nunca se envergonha de pedir desculpas...
Mesmo quando aos olhos de outros possam parecer que está fraca.Ainda assim é forte

Se orgulhosa é porque conhece seu valor.
Sabe como ninguém se amar.
Como não perder-la... A elogie, demonstre o quanto ela é importante, nunca lhe dê tempo... Para ela achar que não vale a pena continuar, pois ela dá a volta por cima muito rápido.

Nunca se mostre impaciente com ela ou do contrário ela ira brincar de rainha em outro castelo.

Querida, Nunca perca essa luz, é seu brilho. Vai ser invejada
Como qualquer estrela maior.

Sabem o quanto vale essa jóia?
Espero que sim, e possuem sorte por tê-la por perto...

Mas não se esqueça, quando alguém quiser te magoar, não souber te amar...
É pq não te merece.
Viuuuuuuuuuu????? Brilhe!!!

22 de jan. de 2009

Onírico

Veio num sonho, certa noite.
Ela o amava. Ele a amava também.
E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era.

Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela.
Isso era tudo.
Dormiam juntos, no sonho, porque era bom para um e para outro estarem assim juntos, naquele outro espaço.
Não vinha nada de fora, nem ninguém.

Deitada nua no ombro também nu dele, não havia fatos.
Dormiam juntos, apenas.
Isso era limpo e nítido no sonho que ela sonhou aquela noite.
Deitada no ombro dele, ela via seu rosto muito próximo.
Esse era o sonho, nada mais.
isso, mais tarde saberia, era o único fato do sonho inteiro: via o rosto dele muito próximo.
Como um astronauta prestes a desembarcar veria a face da lua, mal reconhecendo o Mar da Serenidade perdido em poeira cinza, assim ela o via naquela proximidade excessiva, quase inumana de tão próxima.
Fechasse os olhos — mas não os fecharia, pois já estava dormindo — guardaria contra as pálpebras cerradas um por um dos traços dele. Crateras miúdas com negros fios de barba despontando duros de dentro delas, molhadas gretas polpudas além das quais brilhava o branco duro dos dentes.

Coisas assim, ela via.
E de olhos abertos, embora fechados, pois sonhava, protegia-o, protegiam- se no meio da noite. Tão simples, tão claro. E de alguma forma inequívoca, para sempre.
Talvez ele tivesse passado um dos braços em tomo da cintura dela, quem sabe ela houvesse deitado uma das mãos sobre o ombro dele, erguendo os dedos até que tocassem no lóbulo de sua orelha. Em todos os dias que se seguiram à noite daquele sonho, e foram muitos, honestamente não saberia localizar outros detalhes.
Pois enquanto dormia, naquela noite, tudo era só e apenasmente isso: dormiam juntos.
No centro da noite, no meio do sonho, no outro espaço.

Embalada pelos ruídos da rua, dormiu até quase sete entre sonhos onde ele não surgia, perambulando por histórias que não o traziam de volta.

Lavou o rosto, esquentou o frango no microondas, passou café, acendeu um cigarro espiando chatices na tevê — e tcomou a dormir.
Custou um pouco.
Foi quando, caindo em tentação, tentou quase desesperada lembrar-se — daquela vez, naquela noite — se ele teria mesmo passado um dos braços pela sua cintura, e se esse braço teria pêlos densos, mas macios de tocar, e se a mão dele realmente fechara-se exata e solidária e carinhosa naquele ponto secreto onde, constrangida, ela admitia ter mesmo algumas gordurinhas, e se a mão dela estaria assim meio pousada nos pêlos do peito dele, distendendo dois, três dedos até tocar no lóbulo da orelha. Colado ao rosto, alguém dissera, muita espiritualidade. Ou o contrário? Budas, Cristos, Oxalás, invocou no escuro que ainda guardava certo cheiro do sono anterior onde, nu e homem, ele habitara ao lado dela. Mas sabia que tudo isso — as invenções recentes sobre o outro espaço — era puro artifício.

Sem artifícios, acordou na manhã seguinte.
Vazias, ela e a manhã.

E procurou o telefone para contar às amigas. “Premonição”, disse uma, “você vai encontrar alguém”; “transporte astral”, disse outra, “você deve tê-lo realmente encontrado numa outra dimensão”; “ah, mera projeção de carências atávicas”, disse mais uma, “no fundo pura falta de sexo”.

Algum dia, ela desesperançava, em algum lugar, planejou em seguida, noutro espaço, por trás de tudo, num mundo paralelo, quem sabe: ah, sim, que certamente tornaria a encontrá-lo numa interfreqüêncía de rádio ou televisão, num reflexo do espelho.

E às quatro da manhã a surpreenderam com um prato de macarrão frio sobre os joelhos, os olhos postos vesgos nos riscos magnéticos horizontais da tela da tevê.
Ele não estava lá.

Nos dias seguintes, mesmo aceitando todos os janta-res e cedendo a todos os cinemas e shoppings e pizzarias, pois ele poderia também estar no real — ele também não estava lá.

Nem aqui. Em nenhum lugar onde fosse, de fora ou de dentro, nos dias seguintes ao dia em que estivera deitada no ombro dele tão proximamente nu também, no fundo de um sonho, conseguia reencontrá-lo.
Pois havia outros detalhes, semanas depois ainda tentava lembrar.
Havia um cheiro, por exemplo. Tênue, quase perverso. Intimidade úmida, limpa, nas dobras da carne suada, preservada na própria pele. Feito égua no escuro do quarto, escancarava narinas farejando o macho que a cavalgaria.

Deu para pesquisar colônias masculinas, aspirar camisas entreabertas dos homens pelos ônibus, nas filas de bancos e correios, elevadores, essência entre os pêlos, primeiro suor após o banho, reconheceria quando o encontrasse. O cheiro cru, original.
Não encontrou.
Dilatava as narinas em lugares públicos cheios de homens suados — mas nenhum cheiro era o dele. Rememorava meticulosa: de baixo para cima, rosto pousado no peito dela, assim o vira naquela única vez.

E embora o ângulo distorcido, porque era tudo o que tinha, tentava recompô-lo meses — e distorções — depois. Miúdas crateras, fios negros duros de barba despontando — apegava-se à certeza do negros como se fincasse bandeira em território conquistado — e depois as gretas polpudas de um lábio inferior atrás do qual brilhavam alvos dentes brancos. Alvos, repetia.

Revistou revistas procurando semelhanças, Gibsons, Hanks, Lamberts, e esforçando o olhar para além dos (cones imaginava identificar um sobrecílio, um pômulo, mas se passara tanto tempo que talvez, a original, a única, que não saberia seria ainda uma memória ou sua Primeira Invernada. Insistia: cílios longos macios. Sem vírgulas longos macios os cílios do homem que a amava e que ela amava também naquela noite e para sempre no meio de um sonho ficando antigo demais e meio disperso.

Invenções Desesperadas, pois, passou a fazer, Íntimas Orgias Imaginárias.
Fossas nasais abertas onde ela passava a ponta da língua localizando certo remoto gosto salgado, e a outra mão dela, não aquela pousada no peito dele, mas esta uma que descia à toa pelos pêlos, enroscando-se até a cintura e então o umbigo súbito em certa barriga perdoada, porque ela o amava, e penetrava no umbigo com a ponta da unha vermelha, antes de mergulhar na mata mais abaixo, aquele homem que não era sequer perfeito e por isso mesmo belo, porque a amava e ela a ele, e isso era para sempre apesar do fugaz.

Passaram-se meses, ela não o esquecia.

Toda noite, acompanhada ou não — pois ao fim e ao cabo achava, digamos, saudável manter uma vida real-objetiva enquanto ele continuava a acontecer dentro de si, no outro espaço, sem que ninguém soubesse —, abria-se só para ele.
E quando os outros reais, objetivos, debruçavam-se sobre ela, virava-os de costas na cama — boca arriba, repetia, como se fora argentina, boca arriba — e encostando o rosto em seus peitos tentava retomar aquele mesmo ângulo entrevisto à beira do pescoço úmido, íntimo, único.
Mas nunca outros homens foram, eram nem seriam aquele, e ela sabia que de maneira alguma poderiam ser, ainda que fingisse com o máximo de empenho. Pois, por trás do sonho, resistia o chamado real-impiedoso.

Porra caralho buceta, repetia sozinha.
Bruta, vulgar.
Afinal, não era essa a forma de procurá-lo, jamais no chamado real-impiedoso.
Então voltava a deitar em horas absurdas e a dormir para tentar encontrá-lo no país onde habitava, e nem sabia que reino mais, tão diverso do dela.

Todas as noites, um segundo antes de afundar, pensava — onde quer que você esteja, meu príncipe, em qualquer região da minha mente, no mínimo interstício, na fímbria do pensamento, frincha da memória, dobra da fantasia, faixa vibratória passada presente futura, aqui vou eu ao seu encontro, meu bem amado.
E nada.
Mesmo que alimentasse o hábito de materializar anjos e fadas sentados à beira de sua cama a perguntarem gentis o que desejava mais profunda e loucamente entre todas as coisas da vida inteira, o que mais queria de tudo que existe no universo infinito — e respondesse sempre, singela e sincera: tornar a encontrá-lo —, nunca mais voltou a vê-lo. Nem no sonho, nem na vida. Inúteis cartomantes, trânsitos, runas, ebós.
O Valete de Copas traria carta de amor assim que Netuno abandonasse a oposição de Vênus na casa do karma, Peorth anunciaria o reencontro das coisas perdidas se Oxum aceitasse as rosas amarelas jogadas na cachoeira. Nessa região movediça da qual não desacreditava de todo, pois, afinal, fora onde o conhecera — ele também não estava.

Delirava insone: quando eu voltar princesa e você gladiador entre feras, quem sabe na arena; quando emergir do fundo das águas para espiar teu reino terrestre e verde, à superfície, quando eu talvez sereia, mulher-maravilha, pastora e astronauta navegando em abismos — quem, quem sabe quando?

Por enquanto, arduamente. era só um cheiro de homem nu flutuando no escuro do quarto, quentura de bicho vivo pulsando junto à quentura de bicho vivo dela. Outra coisa, noutro lugar. Que não ficava aqui, nem lá.
Talvez se morresse.
O problema é que a vida era agora e era aqui. E além de não estar nem no aqui nem no agora, ele não partia.

Não se matou.
Não seria capaz, resistia sempre à ilusão de encontrá-lo um dia. Por isso mesmo houve outros, claro. Algumas iluminações, encontros quase agradáveis até. O engenheiro divorciado, um professor de olhos verdes.
Mas aprendeu a ir dormir sempre o mais cedo que pode, pois é nessa faixa que ele habita, ela sabe, a contemplá-la mesmo de olhos fechados.
E de tudo que foi restando nesses anos todos, continua sabendo que sabe que fica lá o lugar onde poderia encontrá-lo outra vez. Do outro lado, onde com os olhos abertos ela vê com os olhos fechados e inteiramente nua, encostada ao ombro dele, que dorme inteiramente nu também, mas a vê-la dentro do sono.

Arfam levemente os dois. Ela dorme segura protegida no ombro dele que a protege seguro. Mesmo dormindo, mesmo do lado de cá. E isso é para sempre, por mais que o tempo passe e a afaste cada vez mais dele, que continua eterno naquele segundo em que o viu. E isso ninguém roubará, repete-se, mesmo levando em conta todos aqueles meses de enganos vis que continuam e continuarão a vir depois daquele sonho.

Eu te amo, repete sozinha para o escuro toda noite, pouco antes de seu corpo dissolver-se na espuma do sono, eu te amo. E se pudessem saber, os outros, todos saberiam que isso não deixa de ser uma vitória. Certa espécie de vitória. Mas tão dúbia que parece também uma completa derrota.

Caio Fernando Abreu mais uma vez!!!!!!!!!

21 de jan. de 2009

Lamento da Noiva do Soldado

Como posso ficar nesta casa perdida,
neste mundo da noite
sem ti?

Ontem falava a tua boca à minha boca...
E agora que farei,
sem saber mais de ti?

Pensavam que eu vivesse por meu corpo e minha alma!
Todos os olhos são de cegos... Eu vivia
unicamente de ti!

Teus olhos, que me viram, como podem ser fechados?
Aonde foste, que não me chamas, nao me pedes,
como serei agora, sem ti?

Cai neve nos teus pés, no teu peito, no teu
coração... Longe e solitário... Neve, neve...
E eu fervo em lágrimas, aqui.

Essa poesia é parte do livro "Antologia Poética de Cecília Meireles.
Lindíssimo!

14 de jan. de 2009

Anotações sobre um amor urbano.

"...No fim destes dias encontrar você que me sorri,
que me abre os braços,
que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada,
no que resta de cabelos na minha cabeça confusa,
que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro.
Mergulho no cheiro que não defino,
você me embala dentro dos seus braços,
você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas,
versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones,
máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto,
e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos,
e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem...

O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias.
Não tomo banho.
Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu.
E basta fechar os olhos para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca.

Abismos marinhos, sargaços.
Minhas mãos escorrem pelo teu peito.
Gramados batidos de sol, poços claros.
Alguma coisa então pára, todas as coisas param.
Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui do fundo da cidade escura.
Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto.
Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar.
Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça.
Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro.
Você assopra na minha testa.
Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto.
Fico noite, fico dia. Fico farpa, sede, garra, prego.

Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz:

— “Vamos embora para um lugar limpo.
Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas nem conte a ninguém.
Nada mais importa.
Agora você me tem, agora eu tenho você.
Nada mais importa.
O resto? Ah, o resto são os restos.
E não importam

Apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca,
reinventar no escuro teu corpo moço de homem apertado contra meu corpo de homem moço também,
apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonado, apavorado, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios,
e amanhã não desisto:
te procuro em outro corpo, juro que um dia eu encontro.

Não temos culpa, tentei. Tentamos. "

“Beijo” de Gustav Klimt com um poema de Hilda Hilst

“Te amo como as begônias tarântulas;
como as sementes se amam enroscadas lentas
algumas muito verdes outras escuras;
a cruz na testa lerdas prenhes; dessa agudez que me rodeia,
te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara
me faça menos osso e mais verdade.”

Noites de Santa Tereza

Me penetras por trás como a uma cadela, a grande cabeça roxa da tua piça encharcada pela minha saliva.

Só fico de quatro, como gostas, depois de hastear tua bandeira no mínimo a meio pau, batendo acima do umbigo rendido de eletricista.

Carpinteiros ergam bem alto o pau da cumeeira! grito rindo arreganhada enquanto molho lençóis e mordo fronhas e teu leite grosso escapa de dentro de mim para melar coxas e pentelhos.

Enxugamos os gozos em papel higiênico cor-de-rosa e voltas a me chamar de senhora, sem ouvir Claudia Chawchat que bate portas no quarto ao lado, escandalizada com meus gritos.

Puta, não diz, mas ai! traumatismos, reumatismos, solecismos.

Estou ficando velha e louca aqui no alto deste morro velho, bem na curva da mangueira e das tormentas.

No porto inseguro lá embaixo vão e voltam navios de e para Surabaya, Johnny, tira esse cachimbo da boca, seu rato!

À hora da partida, acaricio culhões de estivadores pelo cais, mas acordo ás quatro da manhã para chupar outra vez o guarda noturno, depois às seis me faço enrabar em pé pelo negrão jardineiro pedindo que me chame de Zelda para que eu goze como numa valsa.

Zilda, ele geme, Zildinha, então desisto temporariamente de sexo e pela manhã compro rosas na feira onde não há um que eu não tenha, sabes? Tipo Clarissa Dalloway compareço à pérgola do hotel em modelinho vaporoso, entre sedas e musselinas me estendo na relva folheando diários da Mansfield e suavemente tusso, tusso, trés Bertha Young.

Mas não apago o cigarro, é com ele em pinho que à tarde troto ladeira abaixo em chita estampada e havaianas, hibisco no jubão, bem Sonia Braga. Lambo com os olhos do rabo o cobrador e desço antes do flamengo deixando telefone embrulhadinho junto com o dinheiro da passagem.
Mais tardar sábado tem mulatão de Madureira em meu dossel.

Te busco por telefone, telegrama e telepatia na cidade antiga onde vendo móveis, viro punk a tesouradas, cinco furos na orelha esquerda, jogo um Volpi no lixo, cometo escrotidões indizíveis rasgando noites que não estas de agora, mais tropicais e tão ordinárias quanto.

Enfim parto em lágrimas da cidade iluminada espatifando corações de gás neon, tudo em vão naquelas madrugadas em que choro bêbada cheirada malfodida metade no ombro de Patricia, metade no ombro de Luiz carlos, e repito repito meu amor você não precisa mentir, você só precisa me dizer por que, Camille Claudel perde.

Deixo recado definitivo na secretária eletrônica alta madrugada e parto, definita também, pasta de originais inéditos na sacola relíquia Biba de franjas e espelhinhos na gare da Estação da luz: Janet Frame abandona a Nova Zelândia.

Agora sou o último quarto no fim de corredor, à esquerda de quem vai, não de quem vem, compreende? antes da queda brusca do caminho os trilhos do bondinho.

Ligo a TV sem som, espalho devagar nívea hidratante entre as coxas, pelas róseas pregas do cuzinho que eles gostam de arrombar, objetos brutais e necessários. E de novo te espero em desespero, outra paisagem, outros sabores, quem sabe o porteiro da noite batendo a porta dizendo ser você interurbano urgente na portaria e eu nem atenda abrindo de joelhos com os dentes manchados de batom o zíper do garotão. Anyway, amanhã vou e volto tentar te ver, talvez ponte-aérea, trem só se me sentir demasiado Karen Blixen, o que é raro.

Trarei Rimbaud da Abissínia - alma gangrenada, a minha; dele a perna, naturalmente - para abnegada cuidá-lo até o fim. Recados para Isabelle, exigirei direitos totais sobre a obra, que não há de ser par delicatésse que perderei minha vida.

Entre os galhos da mangueira carregada espio a lua minguante sobre a Guanabara, lobiswoman esfaimada na curva das tormentas.

Fumo além da conta, tenho umas febres suspeitas, certos suores a noite, muito além deste verão sem fim. Uns gânglios, umas fraquezas, sapinhos na boca toda, será?

Tenho lido coisas por aí, dizem, sei lá. Não duro muito, acho.

O ovo apunhalado

"... Tão liso e tão oval, veja como sua superfície é mansa,
veja como minha mão desliza por ela,
sinta como ele vibra qndo eu o toco,
agora veja como ele incha todo e parece aumentar de tamanho,
veja como meu corpo se encosta ao dele,
veja como minha boca se abre e minha língua freme,
ouça esse gemido saindo de minha garganta,
toque meus olhos fechados,
acompanhe os movimentos de meu corpo contra o dele,
observe como minha carne morena se confunde com sua casca branca
e como eu enterro as unhas na sua superfície macia,
e como eu o atraio pra mim e como nos confundimos..."

12 de jan. de 2009

Desconstruções

Quando a gente conhece uma pessoa, automática e involuntariamente, construímos uma imagem dela. Esta imagem tem a ver com o que ela é de verdade, com as nossas expectativas e também tem muito a ver com o que ela "vende" de si mesma. É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos (ou não).

Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso. Restará a saudade sim, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo. No final, sobreviverão as boas lembranças. Mas se esta pessoa "inventou" um personagem e você caiu na arapuca, aí, somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a de desconstrução daquela pessoa que você achou que era real.

Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindo Marcelo. Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa, mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram por uma fraude, não por um alguém autêntico.

Ok, é natural que, numa aproximação, a gente "venda" mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco. Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é só no começo. Uma vez o romance engatado, teoricamente as defesas são postas de lado e a gente mostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições. Isso se formos honestos. Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias e atitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e o outro fica ali, atônito.

Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar. É um sufoco! Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir e chegar ao infeliz veredito: o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia. Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento tão nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa. Coitadas, desse tipo de gente eu tenho dó!

Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venhamos a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé. Afinal, todos nós resistimos a aceitar que alguém que um dia tanto amamos não é (e nem nunca foi) especial.

10 de jan. de 2009

Do outro lado da tarde...

"...Éramos só nós depois na roda gigante.
Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você.
Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço.
Coisas assim.
Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou.
Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou.
Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado.
Esperamos.
Acho que comemos pipocas enquanto esperamos.
Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse.
Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas..."


Trecho do Livro 'O ovo apunhalado' de Caio Fernando Abreu.

9 de jan. de 2009

Pela rua

Lindíssimo! Tbm está nos meus favoritos!


Pela rua

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.

Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.

Mas que esperança!
Tenho
uma chance em quatro milhões.

Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.

Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

8 de jan. de 2009

Marley e Eu


Um cão não precisa de carros modernos, palacetes ou roupas de grifes. Símbolos de status não significam nada para ele.
Um pedaço de madeira encontrado na praia serve.
Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe,
mas por quem são por dentro.
Um cão não se importa se você é rico ou pobre, educado ou analfabeto, inteligente ou burro.
Se você lhe der seu coração, ele lhe dará o dele.
É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios, e sofisticados, sempre tivemos problemas para
descobrir o que realmente importa ou não.
Ps: Filme lindo!