"...Éramos só nós depois na roda gigante.
Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você.
Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço.
Coisas assim.
Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou.
Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou.
Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado.
Esperamos.
Acho que comemos pipocas enquanto esperamos.
Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse.
Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas..."
Trecho do Livro 'O ovo apunhalado' de Caio Fernando Abreu.
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