1 de mai. de 2009

Desabafo

Mergulho no cheiro que não defino,
você me embala dentro dos seus braços,
você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas,
versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones,
máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto,
e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos,
e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem...

O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias.
Não tomo banho.
Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu.
E basta fechar os olhos para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca.

Abismos marinhos, sargaços.
Minhas mãos escorrem pelo teu peito.
Gramados batidos de sol, poços claros.

Alguma coisa então pára, todas as coisas param.
Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui do fundo da cidade escura.
Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto.

Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar.

Quero ficar assim, no parado.

Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça.
Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro.

Você assopra na minha testa.
Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto.
Fico noite, fico dia. Fico farpa, sede, garra, prego.

Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz:

— “Vamos embora para um lugar limpo.
Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas nem conte a ninguém.
Nada mais importa.
Agora você me tem, agora eu tenho você.
Nada mais importa.
O resto? Ah, o resto são os restos.
E não importam

Apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca,
reinventar no escuro teu corpo moço de homem apertado contra meu corpo de moça também,

Apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonada, apavorada, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios,
e amanhã não desisto:
Te procuro aqui, juro que um dia eu encontro.

Choro, angústia, medo.

Nenhum comentário: